terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Autárquicas de 2009 - Ainda o Aeroporto Sá Carneiro

Ainda a propósito do Aeroporto Sá Carneiro (ASC), em 2007 a companhia low-cost Ryanair fez uma proposta à ANA para instalação de uma base de operações naquele aeroporto. A proposta da Ryanair consistia na criação de condições para que pudessem ficar parqueados cerca de três a quatro aviões, com tripulação e pessoal de manutenção de aeronaves e espaço para escritórios. Simultaneamente a Ryanair pedia um desconto de quatro euros por passageiro embarcado nas taxas cobradas pelo ASC, comprometendo-se a um aumento de 1,5 milhões de passageiros no primeiro ano, e um crescimento anual de meio milhão de passageiros durante os sete anos seguintes. Isto acarretaria um investimento de cerca de 300 milhões de euros, com a criação de cerca de 200 empregos directos.

Como várias notícias ao longo de 2007 e 2008 faziam prever a Ryanair anunciou, em Setembro do ano passado, que abandonava a intenção de instalar uma base de operações no ASC, apontando como alternativa Barcelona. Embora no momento do anúncio a Rynair tenha, em certa medida, poupado nas críticas à ANA, o que é manifestamente verdade é que este projecto não avançou porque a ANA assim o quis. Os reais motivos para esta recusa pela ANA só podem estar relacionados, uma vez mais, com a protecção à TAP e a defesa implacável da rentabilidade do futuro Aeroporto Internacional de Lisboa (AIP). Senão vejamos, em primeiro lugar é estranho qualquer aeroporto recusar a instalação de uma companhia residente, quando os especialistas consideram que é algo de essencial para assegurar o crescimento sustentado do seu negócio. Em segundo lugar, e mais importante, é impossível negar o forte impacto que as rotas da Rynair tiveram ao nível do turismo para toda a região Norte. A Ryanair começou a operar no ASC em Março de 2003, e em 2008 já era responsável por cerca de cinquenta por cento dos passageiros, sendo o principal responsável pelo crescimento de 17 por cento que se tem verificado no ASC.

Para se ter uma ideia mais precisa da importância das empresas low-cost, basta consultar alguma informação disponível no Turismo de Portugal (Ministério da Economia). Até Outubro de 2008 chegaram aos aeroportos portugueses 9,9 milhões de passageiros desembarcados de voos internacionais, o que representa um aumento de 7,5% em relação ao período homólogo de 2007. Embora a opção de 51,4% dos passageiros (5,1 milhões) tenha sido fazer a viagem em voos tradicionais, o maior aumento (23,7%) ocorreu nos 3,6 milhões de passageiros que escolheram viajar em voos low-cost (36,1% do total). Quando se analisa apenas o ASC, os números ainda são mais impressionantes. Até Outubro de 2008 tinham desembarcado no ASC 1,6 milhões de passageiros, mais 24,5% do que em relação ao mesmo período de 2007. No entanto, os voos tradicionais são responsáveis por 47,8% do total de passageiros, com uma taxa de crescimento de 6,9%. Os low-cost já representam 47,1% do total de passageiros (ou seja, o mesmo peso que os voos tradicionais), mas com um crescimento de 57,6%. Repara-se que a proposta da Ryanair traduzia, só no primeiro ano um aumento de 1,5 milhões de passageiros, ou seja, era praticamente duplicar o volume de tráfego de passageiros.

E quando se entra em linha de conta com a importância do Turismo para economia nacional, mais grave se afigura o boicote por parte da ANA à proposta da Ryanair. Tomando por base a informação da Conta Satélite do Turismo, esta actividade representava em 2007 cerca de 10% da riqueza nacional (PIB). Era responsável por cerca de 7,8% do emprego total da economia, num total de 433 mil postos de trabalho. O saldo da balança turística, até Outubro de 2008 foi positivo em cerca de 4.074 milhões de euros, que permitiu anular em cerca de 20% o brutal défice externo português (de 20.032 milhões de euros, sem turismo).

Também se sabe que numa região como a do Norte, por cada milhão de novas entradas turísticas se criam cerca de quatro mil novos empregos directos e indirectos. Além disso, o ASC foi considerado em 2007 o melhor da Europa, ficando em quatro lugar a nível mundial nos aeroportos da sua categoria (menos de cinco milhões de passageiros), classificação atribuída pelo Conselho Internacional de Aeroportos. Esta classificação abrange parâmetros como a comodidade, o tempo de espera no check-in, o tempo de espera pela bagagem ou qualidade dos produtos vendidos na aerogare.

Sabendo-se tudo isto, o que pensar da decisão da ANA? Mas, mais importante, o que pensa a Prof. Dra. Elisa Ferreira sobre tudo isto? Nestes longos meses de pré-campanha algo foi dito sobre este assunto? Foi esboçado um pensamento, uma ideia, uma sugestão, uma crítica à forma centralista como o Governo (através da ANA) está a lidar com a questão do ASC? A Dra. Elisa Ferreira levantou, pelo menos dúvidas sobre a decisão da ANA? Acha normal? Ficamos ansiosamente à espera que ao longo da campanha assuma posições claras sobre o que pensa sobre gestão do ASC.


Luís Moreira Fernandes

3 comentários:

jose fernandes disse...

Final o que é que têm contra a Sr. Dra Elisa Ferreira.

Tadinha.

Ela anda lá pelas Europas, e ainda não pensou no ASC.

Já Agora fica a aqui uma proposta que acho valida.

O investimento no aeroporto foi de 400 M Eur certo? Tanto quanto me lembro foi acabado já nesta legislatura. Portanto é mais do que justo de nome do ASC seja alterado para AJS (Aeroporto José Socrates). O homem ficava todo contente e assim já podia ter uma gestão autónoma, provando que afinal ele tinha razão e que o AJS era bem mais rentável do que seria se continuasse ligado à ANA.
A 2º vantagem e não menos importante é enorme impacto positivo provocado na Região Norte de Portugal, incluindo-se também a Galiza, pois trata-se de uma infra-estrutura central a estas duas regiões e transfronteiriça, à qual o nome do Sr. Eng. José Socrates passaria a estar indissociavelmente ligado.

Note-se também no seguinte: Ele (José Socrates) é Eng. (ou dizem que é). Quem sabe não vão ser encontrados (por mero acaso) ainda uns papeis que o ligam directamente ao projecto do aeroporto?

Recorrendo um pouco ao discurso do Pedro Arroja, poderia aproveitar-se este ímpeto positiva para por em marcha uma projecto de democracia musculada lá para os lados de S. Bento.

azuki disse...

Olá, Luís.

De facto, torna-se difícil encontrar, na gestão em rede, vantagens para a Região Norte e para o País, quando vemos a ANA a recusar a proposta de instalação de uma base da Ryanair no ASC. Como referes, as LCCs ainda não são maioritárias na actividade do ASC, mas têm sido o motor do crescimento do tráfego de passageiros nos últimos anos. Não creio que a actual proposta do Governo, que tenderá a minimizar a importância dos aeroportos menores em detrimento do NAL, venha a ser atractiva para empresas cujo modelo de negócio assenta em produtos e processos céleres e que, por isso, exigem simplicidade nos procedimentos e decisões.

Aproveito para, em nome da Associação de Cidadãos do Porto, convidar os quatro Luíses (!) do “Porto Laranja” a visitar o nosso site que, por agora, se encontra inteiramente dedicado à defesa da Gestão Autónoma do Aeroporto Sá Carneiro: http://www.acdporto.org/

Foi bom rever-te, passados todos estes anos :)

Um beijo e até breve,
Sílvia

azuki disse...

perdão, não queria dizer "em detrimento do NAL", mas sim "em benefício do NAL"